Quarta-feira, 13 de Abril de 2011
Um erro

Confesso que não acompanhei o congresso do Partido Socialista com atenção. Nunca é nada de verdadeiramente interessante, não apenas pelo PS ser um partido desinteressante, como também por já esperar a ostentação da propaganda interna e da ideia de que a culpa, em momento algum, é "nossa". O PS é um partido dissimuladamente sectário. Ao contrário do PCP que é assumidamente sectário e onde há uma absoluta submissão partidária, no PS passa sempre a ideia de "partido da democracia" e da pluralidade, o que de facto não acontece como bem se pôde constatar com a total falta de noção da realidade e da responsabilidade que o PS tem efectivamente na conjuntura actual. Os seus militantes e simpatizantes viraram-se para Meca. E isto é muito mais perigoso porque nunca sabemos o que realmente pensa o partido para além da propaganda e do spin.

Com o país a viver um período de instabilidade sócio-económica, negar responsabilidades governativas é uma postura com traços pouco democráticos e de um servilismo que não deve ser tolerável no debate político democrático. É claro que o PS tinha necessidade de se galvanizar e que este congresso seria importante para unir o partido para uma eleição para a qual sai bastante fragilizado, a avaliar pela opinião pública mais mediática. Isto não significa, porém, que um congresso inteiro seja dedicado ao principal partido da oposição como se os papéis da governação estivessem invertidos. A culpabilização de que falou, por exemplo, Luís Amado, não é o caminho. Faltou ao PS contrariar a falta de soluções. É que o PS também não as tem, não sei se todos reparámos. Muita emoção e amizade e coesão, mas definição de conteúdos: zero.

É verdade que a unidade parlamentar em torno do PEC falhou numa altura em que não poderia acontecer. Mas também é verdade que não há certezas sobre a boa-fé do Governo na natureza dessa crise política. Muito pelo contrário. Também não podemos esquecer que num cenário inicial de crise, sem sabermos muito bem o que se estava a passar, o Governo insistia em investimentos pouco seguros ou até despropositados face à nossa situação financeira. Tivemos, aliás, um ministro que em 2008 garantia que a crise já tinha acabado, como tivemos garantias de que estava tudo bem ao longo dos últimos dois anos. E quando o cenário se agravava havia sempre uma desculpa. Ainda há. Além disso, para um partido que se diz reformista e progressista, afastar ministros com a determinação política de Maria de Lurdes Rodrigues ou Correia de Campos diz muito sobre as suas reais intenções à volta dessas reformas e das suas prioridades. O Partido Socialista não é um partido de confiança. Luzes e barulho à parte, neste congresso deu para perceber isso mesmo. Votar no PS é um erro.


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publicado por jorge c. às 08:47
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Terça-feira, 12 de Abril de 2011
Oh, the humanity of it all!

Japan Nuclear Crisis: Officials Reportedly Raising Crisis To Highest Severity Level, 7, Matching Chernobyl

 



publicado por jorge c. às 03:50
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
É a loucura

Não é tanto a incoerência e surrealidade da postura de Fernando Nobre que me incomoda. A isso já deveríamos estar habituados desde a sua inenarrável campanha para as Presidenciais. Espanta-me, isso sim, que o PSD convide este cavalheiro para encabeçar as listas por Lisboa para as legislativas com o objectivo de, se ganhar, torná-lo Presidente da Assembleia da República. Fernando Nobre não deveria sequer conseguir chegar a Presidente da Assembleia de Freguesia de Custóias, quanto mais... Está tudo doido.



publicado por jorge c. às 10:49
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011
sejam amigos!


publicado por jorge c. às 12:18
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Menos que zero

Não se compreende a importância dada a um momento que, para além de tudo, foi gaffe da estação de televisão que o transmitiu e não da pessoa em concreto. Parece que Sócrates é o único a ensaiar a forma como olha para a câmara. Podemos sempre esperar que, sem ensaio, Sócrates fique a olhar para o lado e então fazemos regabofe disso. A infantilidade não tem limites e não tem qualquer graça, principalmente quando promovida por meios de comunicação a quem atribuímos credibilidade. O interesse noticioso disto é menos que zero.



publicado por jorge c. às 11:53
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Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
A encruzilhada

Um pedido de ajuda externa feito por um governo de gestão é uma questão muito delicada. Mais delicado se torna com a dissolução do Parlamento. Isto é um imbróglio nunca antes visto. E dificilmente vai ficar tudo bem.

O que nos diz o nº5 do artigo 187º da Constituição (CRP para os amigos) é que "o Governo limitar-se-á à prática dos actos estritamente necessários para assegurar a gestão dos negócios públicos". Ora, por mais sui generis que seja o momento, convém pensar out of the box como os gestores modernos. No essencial os limites impostos ao Governo não são taxativos, o que deixa muito espaço a interpretações extensivas. Não podemos pensar que isto só acontece para que o Governo subverta as suas competências, mas antes para que um governo em gestão, seja ele qual for, tenha margem de manobra na resolução de problemas imediatos e urgentes.

Resta-nos agora perceber que entendimento fazemos do momento que estamos a viver. Será um pedido de ajuda externa um acto de gestão estritamente necessário? A nossa capacidade de financiamento agravou-se. A dívida privada (essencialmente) e a pública perderam credibilidade e a banca não tem condições nem de financiar nem de se financiar. Com a especulação que paira por aí, corremos o risco de entrar num problema bancário profundo. O nosso dinheirinho, portanto. É capaz de ser chato.

Por outro lado, recorrer a ajuda internacional de um qualquer fundo é um acto político, uma decisão política e não um acto de gestão corrente das contas públicas. A sua inevitabilidade não é efectiva ou real. É claro que as suas consequências podem ser desastrosas. Não podemos afirmar com certeza de que teríamos capacidade para subsistir sem financiamento e com um volume de dívida tão grande. Ainda assim é uma opção política. Ora, com um governo demissionário e uma AR dissolvida, resta-nos o argumento de uma grande emergência nacional para suportar o conceito de "estritamente necessário". Mas, mesmo com todos os partidos de acordo (que neste momento, em rigor, não representam ninguém), tenho sérias dúvidas sobre a legitimidade para um acto com consequências que perdurarão sabe-se lá durante quanto tempo e que terão um peso significativo não só no quotidiano como no desenvolvimento do país; um acto que não é apenas "gestão dos negócios públicos".

Uma lei fundamental existe como instrumento de organização não só para referência diária ou manual de conduta, mas também para nos proteger em momentos conturbados em que percamos o norte. Instrumentalizar a Constituição material à luz de um momento que pode não ser representativo da realidade constitucional é, de certo modo, fragilizar a segurança dogmática da CRP e a nossa própria confiança na discricionariedade que a CRP permite. Não é algo que deva ser feito com ligeireza e de forma dissimulada.

Era importante ser honesto com o país e não andar a fazer de conta que a questão é simples. Pelo menos o sr. Presidente da República terá essa obrigação.



publicado por jorge c. às 11:12
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Quarta-feira, 6 de Abril de 2011
A ignorância das frustrações

Temos um problema sério para resolver em Portugal. Uma parte significativa dos portugueses acredita que votar é um favor que se está a fazer aos políticos. Isto é muito grave porque parte de uma linguagem demagógica que resulta invariavelmente em líderes populistas que acabarão, mais cedo ou mais tarde, por restringir-nos direitos, liberdades e garantias. Num tempo de crise financeira, a crise política aguça este engenho populista e conquista o coração dos mais distraídos, dos mais incautos, que vêem nas mensagens anti-política, anti-sistema, anti-regime, anti-banca, anti-tudo o que cheire a poder, a tónica certa para tapar a sua incapacidade crítica objectiva.

É importante que, para isto, os agentes políticos saibam ser pedagógicos e expliquem a relevância de um sistema partidário, das mais simples vantagens da democracia, do financiamento público e da remuneração e não se deixem envolver pelo élan populista.

O crescimento da demagogia em Portugal é alarmante. Mesmo quando se lança este alerta é-se facilmente julgado como protector do regime corrupto, tachista e por aí fora. Temos um problema sério para resolver em Portugal.



publicado por jorge c. às 13:39
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That's entertainment

Na televisão o primeiro repete o mantra, o banqueiro faz sugestões, o conselheiro acusações, o comentador teve sempre razão, não há oposição nem dinheiro, a agência especula, o credor desconfia e nós, nós vemos televisão com o cachecol na mão.



publicado por jorge c. às 00:53
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Terça-feira, 5 de Abril de 2011
Sociologia II

Neste dia em que passam 17 anos (17 anos, santo deus!) da morte de Cobain recordo-me da importância sociológica da música popular contemporânea. Ela é e será sempre a expressão mais fiel de uma determinada geração, ou uma parte cultural significativa onde, para além das habituais frustrações, receios, ansiedades adolescentes, existe um sentido crítico, uma estética e um enquadramento que reflectem uma narrativa social própria de um grupo específico. Não tem necessariamente de ser explicito. Mas Cobain foi pornograficamente o grande autor da sua geração, o cronista daquele tempo, um génio de sociologia.

 



publicado por jorge c. às 18:08
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sociologia



publicado por jorge c. às 16:45
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2011
A espuma dos dias

Este é um título gasto. Não vou abusar pornograficamente dele. Até porque a espuma dos dias que correm lembra as marés poluídas reproduzidas nos livros da escola instruindo-nos para um planeta melhor. Sejam bons meninos, não deitem lixo para o chão, não liguem o sistema de rega quando não é nesserário e todas essas recomendações que julgamos que todos apreenderam da mesma maneira. Duas pessoas de boa fé com a mesma informação blábláblá vocês sabem o resto. A escola ensina-nos o pensamento abstracto, desde a nossa relação com o meio físico e social até à matemática, relacionando as duas ao ponto de percebermos que 2-1 pode não ser 1 e ser mesmo dois um, algo que temos de aceitar no sentido de sairmos ridicularizados, mesmo na nossa própria casa e então sejam bons meninos, não deitem lixo para o chão, não liguem o sistema de rega, nem apaguem as luzes para as voltar a acender logo depois porque o gasto de energia é maior. Coisas simples, lógicas, para uma convivência saudável tout court. Mas parece que a equação das duas pessoas de boa fé com a mesma informação blábláblá vocês sabem o resto não tem o resultado esperado. Aquilo que define as pessoas não é o que elas aprendem, mas a forma como o usam, o seu carácter e todas essas características que inevitavelmente acabamos todos por ter em excesso no dia em que vamos ao encontro do criador; um currículo sobrevalorizado pelos nossos pares e que nem sempre tem assento parlamentar. Senhor deputado, tem a palavra. E já que ma dão, que expressão tão bonita, queria aproveitar para agradecer à minha família e a todos os que contribuíram para este momento em que me apercebo mais uma vez que a espuma dos dias é a revelação de que nem sempre o pensamento abstracto que nos ensinam a todos na escola, a nossa relação matemática com o meio físico e social a partir da comunicação gramática, a nossa memória histórica imputada, resultam no mesmo e acabamos por usar os instrumentos que temos de forma despropositada, desadequada, mesquinha, pequena. Foram conselhos que não ouvimos, aulas a que faltámos, confusões de conceitos, sabe-se lá o que é que acontece a uma criança quando está sozinha. É por isso que lhes dizemos sempre sejam amigos, sejam bons meninos, não deitem lixo para o chão, não liguem o sistema de rega, nem apaguem as luzes para as voltar a acender logo depois porque o gasto de energia é maior, não mintam a ninguém, nem mesmo a vocês próprios, valores em escala que julgamos apreendidos. É lançá-las no mundo para serem pessoas melhores para elas próprias, sem ressentimento, sem rancor. E quando é preciso que um acontecimento mediático e evidente nos prove isso, quando achamos que isso vai nos tornar a todos em criaturas mais conscienciosas, regressa o ódio e o cheiro da vingança como lixo das fossas que desembocavam na praia de Matosinhos quando eu tinha doze anos, e ali ficava uma espuma escura, colorida mas escura. Era impossível que parecesse bem a alguém.



publicado por jorge c. às 11:50
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que isto seja o início de uma longa e bela amizade

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publicado por jorge c. às 11:19
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Sábado, 2 de Abril de 2011
Uma descoberta recente
Identity
 
When Hans Hofmann became a hedgehog
somewhere in a Germany that has
vanished with its forests and hedgerows
Shakespeare would have been a young actor
starting out in a country that was
only a word to Hans who had learned
from those who had painted animals
only from hearing tales about them
without ever setting eyes on them
or from corpses with the lingering
light mute and deathly still forever
held fast in the fur or the feathers
hanging or lying on a table
and he had learned from others who had
arranged the corpses of animals
as though they were still alive in full
flight or on their way but this hedgehog
was there in the same life as his own
looking around at him with his brush
of camel hair and his stretched parchment
of sheepskin as he turned to each sharp
particular quill and every black
whisker on the long live snout and those
flat clawed feet made only for trundling
and for feeling along the dark undersides
of stones and as Hans took them in he
turned into the Hans that we would see
 
W.S. Merwin

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publicado por jorge c. às 13:19
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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
E com isto tudo já são horas de Abril

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publicado por jorge c. às 19:16
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Não há só fados no S. Luiz

Ir ao S. Luiz, por si só, já é um sucesso garantido. Um sala que recebe tão bem e com a sua qualidade técnica é, por si só, uma vitória. Mas como em tudo na vida não fazemos nada sozinhos, não somos completos.

A noite desceu quente sobre Lisboa. O cheiro da Primavera é perfume adequado para estes serões que nos abraçam com uma ternura inigualável. São as noites propícias à sensualidade das danças, das guitarras desgarradas que arranham a calçada e a partem sem piedade. Calçada que se estende de Lisboa a Paris ou a Buenos Aires querida através de uma voz de veludo que nasceu a cantar, sem esforço, torcendo a alma como um pano velho, o inevitável fado que nos mói, desconforto ou inquietação sem o qual não sabemos viver. Assim se completa o espaço com um corpo que se move pelo palco com uma delicadeza sincera nos gestos provocando arrepios e sorrisos. E quando se move, Cristina Branco dança e reage às palavras que se vão trocando como por mera brincadeira, como um jogo de significados entre as línguas; uma nova linguagem entre a guitarra portuguesa e o acordeão; uma nova linguagem entre a língua de Camões e a de Baudelaire que se cruzam num tango paciente e cheio de luz. Vem daí a doçura nos dedos de Laginha por breves instantes que parecem uma eternidade. É aí que ficamos, na eternidade desta beleza, deste conforto, em estilhaços.

 


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publicado por jorge c. às 15:09
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A invenção da mentira*

Nunca achei piada ao 1 de Abril. Todos os anos a mesma conversa: o dia das mentiras para aqui e para ali, piadinhas estafadas com a política e a bola e por aí fora. Até o jornais fazem a sua partidinha marota. Tem imensa graça. Todos os anos. Um dia reservado para mentiras como se o mundo fosse um lugar onde elas não existissem e tivéssemos de tirar um dia diferente do habitual. 

Todos os dias inventamos desculpas para escapar a compromissos, inventamos memória, ficcionamos o nosso quotidiano e reforçamos a nossa personalidade com factos inexistentes. Mentir não é senão a única forma de alterarmos a nossa realidade como melhor nos convém. Isto não tem de ser necessariamente mau. Mentimos para não sermos inconvenientes ou cruéis, por exemplo. Mentimos para agradar aos outros ou até mesmo para não prejudicar ninguém, num esforço altruísta muitas vezes inconsciente.

A mentira é também a defesa da nossa intimidade, a nossa muralha para defender fragilidades, defeitos ou vícios que não queremos expostos a qualquer um. Fazemos dela uma forma de nos adaptarmos ao meio. No limite, estamos sempre a ir contra a nossa natureza e a inventar a mentira todos os dias expurgando-lhe o pecado e dourando-a com a necessidade.

Tornámos este dia numa efeméride aborrecida. A minha irmã faz anos hoje, por exemplo, e sempre que o digo a alguém, está-se mesmo a ver o seguimento da conversa. Anos e anos disto. É aborrecido.

Se o 1 de Abril continuasse a ser uma forma de gozar os franceses, confesso que me sentiria mais tentado a comemorá-lo. Assim, só me resta desprezá-lo.

 

*Título roubado ao filme de Ricky Gervais.



publicado por jorge c. às 12:19
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