Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

25
Jun10

Grand Jacques

jorge c.

 

Parece que Brel passou pelos Açores. Mas, que história poderia sair daqui? O que pode ter acontecido de tão extraordinário para que esse facto, esse simples facto, fosse motivo para um espectáculo? Fica-se quase com a sensação que estamos perante um daqueles golpes saloios de promover o turismo. "Vá para fora cá dentro. Olhe que o Brel foi e lá ficou". Pois ficou. Porque estava doente. E desse imprevisto nasceu uma pequena história de universalidade, de existência crua e simples, na cabeça de Nuno Costa Santos.

Brel nos Açores é, acima de tudo, uma obra de uma generosidade única em que o autor nos oferece o seu olhar mais intimista e nos diz com alegria "vejam, vejam como ele era por dentro, vejam o que eu vi". E essa oferta genuína reflecte-se ao longo da peça com momentos de uma agressividade tal que deviam ser proiíbidos. Quase que era necessário colocar um aviso à porta a prevenir as pessoas de que "este espectáculo contém cenas e linguagem que podem ferir a sua alma de forma irreversível. Tenha cuidado, amigo!"

Para este efeito é fundamental compreender quem está no palco. Dinarte Branco é o actor ideal para o espectáculo. Um olhar que galopa entre o melancólico, o colérico, o doce e o distante. Dinarte consegue ser dois ou três narradores diferentes dando relevo à figura de Brel como que o deixando sempre no centro da espiral de emoções que andam por ali. É, ele próprio, os olhos de Brel e também a sua boca e os seus gestos mais contidos, o seu cinismo agreste e a sua necessidade de partir.

Mas não se monta um espectáculo destes. Um cenário improvável e impraticável.

Revela-se mais uma vez a sua qualidade numa cenografia simples, minimalista e com uma dinâmica livre que começa por envolver o público e ligá-lo ao actor, carregando-o lentamente para o palco num movimento de elevação da personagem. E essa dinâmica livre poderia chocar com a tensão das palavras de Brel muito bem traduditas, diga-se, se me permitem o neologismo. Pelo contrário, há uma harmonia plena na narrativa, como uma onda que nos tira o peso do corpo e nos transporta, a nós e ao desconforto, mar adentro. Uma onda Breliana, como diria o Nuno. Não fosse este espectáculo uma grande parte de si mesmo.

 

Está lá até Sábado, no S. Luiz. Não hesitem. Seria uma perda irreversível.

 

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Um blog de:

Jorge Lopes de Carvalho mauscostumes@gmail.com

Links

extensão

  •  
  • blogues diários

  •  
  • media nacional

  •  
  • media internacional

    Arquivo

    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2013
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2012
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2011
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2010
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D