Sábado, 4 de Setembro de 2010
Uma tragédia

Nunca teci qualquer juízo sobre o processo Casa Pia. Nunca achei ou deixei de achar que este ou aquele eram culpados ou inocentes. Só um tonto pode achar alguma coisa baseado em nada ou, no máximo, na boateira do "eu conheço uma pessoa que...". Ainda bem que todos conhecemos pessoas, é bom sinal!

Chegados ao fim deste processo, não obstante a próxima maratona de recursos para instâncias superiores, resta comentar aquilo que verdadeiramente me preocupa em abstracto, aquilo que diz respeito à Justiça e ao seu reflexo social.

Foram 5 anos de julgamento. Foram ouvidas centenas e centenas de testemunhas (quase um milhar). Foram atirados na lama nomes de pessoas que nada tinham que ver com o processo e, mesmo as que tinham, foram-no sem qualquer fundamentação. Os magistrados foram postos em causa do primeiro ao último dia. Os advogados contribuíram mais do que ninguém para o atraso do andamento do processo. Os arguidos viram as suas vidas adiadas. As vítimas ficaram a aguardar. O país inteiro especulou, difamou e, mais do que tudo, duvidou. Duvidou e continua a duvidar, e é este o principal problema deste processo - a dúvida.

Feito um grande Otelo (façamos de conta que a Justiça é Desdémona), a partir deste processo, o país desconfia legitimamente do sistema. Será possível ser vítima de uma cabala tão rebuscada? Será possível que "nomes ligados à política" passem incólumes? Será possível lutar pela defesa do bom nome em Portugal? Podemos confiar na independência dos magistrados? Podemos confiar na boa-fé processual dos advogados? Podemos confiar na melhor diligência do MP? Podemos acreditar num sistema de Justiça? Podemos esperar que se faça justiça?

Tudo isto são questões legítimas que este processo levantou. Não me lembro de um tempo em que não se dissesse "isto está tudo mal" ou "os poderosos safam-se sempre" ou outras larachas do género. A verdade é que, com este caso, estas questões fazem todo o sentido. A dúvida está instalada. Ela é, agora, objectiva e inevitável. Não há alteração de legislação, mudança de liderança ou reforma do sistema que safe a imagem da Justiça portuguesa. Se o cidadão não acredita e rejeita a Justiça, ela não existe.

 

Adenda: este post do Funes, como sempre, também toca no essencial.



publicado por jorge c. às 08:45
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92 comentários:
De APPT a 6 de Setembro de 2010 às 19:48
Foi a 1ª vez que deparei com este tipo de site (perdoem-me os aficcionados ando muito pouco tempo por aqui, só faco o indespenavel) e li os comentários. Vocês teem mesmo muito tempo livre, não é ????


De jj a 6 de Setembro de 2010 às 21:33
Tempo livre?Não sei!Mas com esse tempo livre, aproveita-se para escrever bem sem erros ortográficos...Aqui vão as correcções:
1) É indispensável e não indespenavel
2) Faço leva "ç"
3) é Têm e não teem...
Devias aproveitar o teu tempo livre para ler mais livros!Cultiva-te!


De Filipe a 6 de Setembro de 2010 às 20:29
A desconfiança relativamente à Justiça não é de hoje. Mas, apesar de tudo, as instituições têm funcionado. Mal, mas têm. Agora, daí a embarcarmos na velhinha tese da "cabala" e acreditarmos que as instituições sigam esse caminho, parece-me demasiado rebuscado. Se me disserem que os arguidos agora condenados são os bodes expiatórios, a guarda avançada, de outros mais poderosos, acredito sem hesitar. Cabala? Não! E aquilo a que vergonhosamente assistimos na comunicação social, com os arguidos a atirarem a tudo aquilo que podem, e aqui tenho que apontar o dedo à SIC, que tem tido um papel execrável nesta situação, mais não é do que a tentativa da canalha para se manter ao de cima e dizer às vítimas que ainda cá estão e podem fazer aquilo que lhes apetecer. Não é em vão que as vítimas da Casa Pia estão de novo a ser ameaçadas. E eu pergunto: até quando vamos assisitir passivamente ao regabofe por parte destes indivíduos? E até quando vão passar incólumes os respectivos advogados, Serra Lopes e Sá Fernandes à cabeça, por jogarem mão de todos os estratagemas, para ajudar essa corja? Quando é que alguém vai perguntar ao Hugo Marçal porque se apresspu a ir de Elvas a Lisboa para defender o Bibi? Para o calar? Porque ninguém perguntou ainda a Proença de Carvalho o que pretendeu ele com a defesa das vítimas que praticou? Porque é que ninguém perguntou ainda a Inês Serra Lopes quais as suas verdadeiras intenções quando se imiscuiu no processo? Á vergonha de tudo isto não está no processo, mas sim na atitude daqueles que foram condenados, deviam estar presos e estão cá fora a aterrorizar as vítimas e a mostrarem aom país o quão fracos de espírito somos.


De drmaybe a 6 de Setembro de 2010 às 23:22
alguém tem um Lexotan?


De Carlos Vale a 7 de Setembro de 2010 às 01:23
Para quem viu os Pros e Contras o Psiquiatra ao referir-se do sr carlos cruz, disse apenas: "Senhor Carlos Cruz é um grande comunicador."
essa frase quer dizer muita coisa, é um senhor que tem o dom da palavra logo consegue dar a volta as pessoas, mudar as suas opiniões..
Mesmo q tudo prescreva, a vida deles acabou, são na mesma condenados. E por muito que digam que sao inocentes, irão viver com o sentimento de culpa para sempre. Até lá, não vão viver, vão sobreviver mas a rastejar.


De Carlos Vale a 7 de Setembro de 2010 às 01:29
So para terminar com estas conversas, um off-topic..
Ainda estou para saber como é que o Dr. Marinho Pinto, conseguiu ser Bastonário da Ordem dos Advogados. Não tem postura, educação, não tem modos, não tem nada... é uma vergonha este homem. Espero que mudem,mas para melhor


De Filipe a 7 de Setembro de 2010 às 09:50
O Dr. Marinho Pinto chegou à Ordem dos Advogados pela porta grande, com a ajuda do seu grande amigo José Sócrates. Daí a defesa aguerrida de tudo o que se possa atravessar no caminho do Governo ou do PS. E sempre o fez de forma descarada.
Aquela defesa da pena do Carlos Silvino mais não foi do que um pretexto para falar sobre a pena de Carlos Cruz. Ele falou em mais algum arguido? Não, pois não?
Espero que a comunicação social acabe com este circo o mais depressa possivel e deixem as coisas correrem normalmente, que é como quem diz, arrasatarem-se mais uns anos até o caso prescrever e a cambada ficar livre de vez.
Só ainda não entendi porque é que as vítimas continuam a ser ameaçadas, já que o processo, para elas, acabou. Ou será que outros pedófilos já andam a fazer pela vida, tentando evitar que lhes seja apontado o dedo também?


De Mr Wagner a 20 de Fevereiro de 2015 às 08:21
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