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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

19
Set10

Estereotipar por aí

jorge c.

A visita de Bento XVI a Londres despertou-me novamente para um assunto de relativa importância e ao qual julgo não se dar a devida atenção por parecer tão banal - a estereotipagem.

A grande maioria dos críticos da Igreja criou uma lógica de explicação de comportamentos ou práticas reprováveis. Assim, o abuso sexual de menores, por exemplo, explica-se através das restrições sexuais, para falar em termos abstractos. É uma lógica aflitiva. Consegue-se deste modo estereotipar toda uma religião. Este é também um dos motores do fanatismo que se diz combater - visualizar um inimigo compacto com certas características perfeitamente definidas. Um padre = um abusador. Um padre = um provocador de fanatismo. Um padre = um atentado contra a liberdade. Diga o que disser, primeiro funciona sempre a lógica que lhe será inculcada.

Mas a mesma história funciona para outras realidades. A estereotipia é, por si, uma arte. Repare-se na questão do abuso sexual de menores. Que imagem se faz de um abusador? O Luís M. Jorge, por exemplo, não teve dúvidas. Um abusador só pode ser um tipo de direita, gordinho e oleoso, um canastrão empresário, um porco da classe média, ignorante da filosofia e da poesia mas mestre em futebol, tremoços e charutos rascas. Ou então, como relatava um jornalista do Diário de Notícias aquando do julgamento da Casa Pia, o feliz proprietário de um "carro de alta cilindrada" que, segundo os mais informados, parecem ser os únicos a passear-se lentamente pelo Parque Eduardo VII - o único sítio onde existe, aliás, prostituição masculina em todo o mundo - ou seja, gente de posses e mal resolvida com o seu machismo e por aí em diante. Deus! Metade do país é um abusador sexual de menores.

A questão da estereotipagem tem, para mim, a ver com insegurança e medo. Dar ao que não compreendemos uma cara será sempre mais fácil. Criar um inimigo físico com características específicas faz muito mais sentido para uma certa fragilidade da nossa personalidade. Foi isso mesmo que Vincenzo Natali mostrou em Nothing (2003), onde duas criaturas perseguidas pela sua própria vida e pelas suas vicissitudes começam a apagar pessoas e situações só com o poder da vontade até restarem apenas as suas cabeças. Só as suas cabeças.

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