God is in the house
Afastei-me da Igreja Católica há cerca de 10 anos por uma série de incompatibilidades. Víamos o mundo de maneira diferente e, apesar de manter os seus valores nucleares, não consegui ser hipocritamente fiel. Saí. Como dizia alguém aquando da visita do Papa: "não sou eu que tenho uma religião, é uma religião que me tem a mim". Perdeu-me.
Compreendi sempre a perspectiva conservadora da Igreja no capítulo da sexualidade. Compreendi e ainda a respeito, muito embora não a aceite. É para mim natural que a doutrina da Igreja se mantenha sólida no que à Vida diz respeito e não queira descarrilar ao mínimo sinal de evolução social. No entanto, não é verdade que a Igreja nunca mudou. John Milton e William Blake notaram que a nossa ideia de Deus não é a mesma desde sempre e que é a própria Igreja que contribui para essa mudança na fé dos crentes. De um Deus medieval impiedoso passou-se para uma ideia de um Deus misericordioso já no séc. XVIII e, mesmo no séc. XX, a relação dos crentes com Deus modificou-se ao ponto de ser a Igreja a procurar agradar a uma certa evolução e não o seguidismo absoluto a que assistimos durante séculos de História.
Contudo, é importante compreender que qualquer cedência da Igreja no âmbito da sexualidade não deve ser tomada de ânimo leve. Seria sempre como derrubar uma parede-mestra num edifício demasiado antigo.
Vem isto a propósito das declarações do Papa numa entrevista agora publicada em livro sobre o uso do preservativo. São declarações que me deixam satisfeito porque vejo a Igreja a manifestar algo que está muito mais relacionado com a sua filosofia do que o moralismo anacoreta a que nos foi habituando. Acredito, por isso, que para além das questões relacionadas com a sexualidade, há um valor muito maior que é a Vida e que o dogma da Vida faz muito mais sentido do que o dogma da intimidade. Porque a ideia de Deus está nessa necessidade de valorização da Vida e não no medo de pecar.
Não sei se chegou tarde ou não. Sei que chegou e que é bem-vinda.
