Domingo, 4 de Dezembro de 2011
Da política

Não sou propriamente um Sá-Carneirista. Cresci no cavaquismo e fiz-me militante do PSD com Marcelo Rebelo de Sousa. Não entro, por norma, no sebastianismo anacrónico do founding father social-democrata. Tenho, contudo, uma enorme admiração pela sua visão e pela forma como pensou a democracia. Revejo-me nisso.

Assim, lembro Sá Carneiro, hoje, num tempo em que não existe filosofia e visão estratégica. As lideranças estão a trabalhar o momento, sem cultura política e democrática. Francisco Sá Carneiro representa um político com uma ideia política para uma sociedade política. Não é ele que faz falta, mas sim o que ele representa.



publicado por jorge c. às 12:02
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2011
Notas de actualidade

1. As declarações e posições do Governo sobre política de transportes têm sido, nas últimas semnas, desastrosas. Um Secretário de Estado ou um Ministro não podem ter opiniões de taberneiro sobre um assunto que define, em rigor, os índices de urbanidade de um país. A política de transportes do Estado não é um negócio, é uma necessidade. Os riscos de prejuízo são altos e a discussão tem de ser feita. O que não pode acontecer é que a posição subjectiva de um governante que acordou revoltado com os transportes prevaleça sobre as reais necessidades da população. O taxismo começa a ser uma realidade assustadora na linguagem da governação.

 

2. A Greve Geral não pode ser encarada como um atentado ao desenvolvimento do país. Na base da Greve está uma reinvindicação legitimamente definida pelos trabalhadores e sem interferência do Estado, tal como dispõe o art. 57º da CRP. Não se trata, portanto, de um posicionamento político sobre uma atitude mas, antes, uma atitude sobre um posicionamento político. Os grevistas sabem, antes de mais, que qualquer despropósito reivindicativo pode valer-lhes a falta de solidariedade dos outros cidadãos, o que seria contraproducente. Uma greve é um direito e a esse direito corresponde directamente um dever, o da salvaguarda de um Estado de Direito Democrático.

 

Por favor, não percam a memória.



publicado por jorge c. às 11:35
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
Para uma ideia de Europa

As incertezas, vividas por estes dias, sobre o futuro da União Europeia reflectem, de certo modo, a falta de desígnio de um projecto que deixou de se discutir. Não pode haver projecto europeu sem um desígnio, sem objectivos perfeitamente definidos.

Os Estados-membros vivem, assim, uma crise existencial: deverão responder às exigências da União ou às exigências dos seus eleitores que, cada vez mais, desconfiam da direcção seguida? Havendo uma direcção, não é claro quem a esteja a liderar. A Comissão Europeia tem perdido voz de liderança para o eixo franco-alemão nas conversações diplomáticas.

É certo que em situações de emergência, discutir filosoficamente o futuro da UE não é uma prioridade. Contudo, se essa discussão não se tornar uma realidade e não apresentar soluções imediatas, é legítimo que países reféns dos seus próprios resgates financeiros, optem por abandonar um não-projecto e renascer das cinzas.

Em política, nada sobrevive sem um poder de decisão. Nenhum projecto é verdadeiramente um projecto sem definição de objectivos e regras imperativas, com uma estrutura hierárquica clara e inteligível. Assim, cabe aos Estados decidirem sobre o seu próprio futuro. Se isso significar o fim da UE, não é senão uma consequência lógica da falta de rumo.

Será caso para pegar num chavão, um tenebroso lugar comum que, agora, fará todo o sentido: as pessoas primeiro.



publicado por jorge c. às 22:05
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Domingo, 23 de Outubro de 2011
O caminho faz-se a caminhar ou assim

Pedi ao Filinto que me desenhasse a sua perspectiva do actual momento político em Espanha, depois do anúncio da ETA. Pedi-lhe porque, ao longo destes anos em que vamos caminhando juntos, de lados opostos, mas com a mesma intenção, o Filinto é a pessoa cuja opinião sobre o assunto é, para mim, a mais credível. Aqui fica então, com o meu agradecimento e a devida vénia:

 

"A ETA tem sido um dos grandes temas das diversas campanhas eleitorais para as cortes de Madrid, desde que as há. E com a excepção da derrota de Felipe González para José María Aznar, em que se debateu a taxa de desemprego acima dos 20 por cento que o socialista deixou, a ETA foi sempre o tema central.

Estas eleições de 2011 preparavam-se para voltar a retirar a ETA do centro do debate, porque um outro socialista, Zapatero, liderou um governo que voltou a deixar subir a fasquia dos desempregados acima dos 20 por cento – e também porque havia um cessar-fogo e porque os candidatos (Oreja e Rubalcaba) têm os seus galões no combate à ETA. Contudo, a ETA gosta de aparecer. E apareceu, para dizer que vai desaparecer. Desde logo, houve malucos do PP que consideraram que o anúncio era um truque. E ao mesmo tempo que era a prova -- percebia-se esta tese sem dificuldade no El Mundo, no La Razon e no Libertad Digital -- de que o governo socialista tinha estado a negociar com a ETA. A negociar um truque, claro. Enfim!

Depois chegaram os malucos do PSOE: "Finalmente, desde 1936, a liberdade chegou aqui", dizia num comício sábado de manhã o ex-presidente da câmara de San Sebastian. Pretendia santificar a República? Vingar-se da derrota eleitoral para os independentistas da Bildu? Não, apenas um truque eleitoral, claro.

Enquanto PP e PSOE tentam alinhar os discursos para descobrir a melhor maneira de sacar votos depois do anúncio da ETA, um sem-número de malucos, idiotas, crentes, descrentes, ignorantes, especialistas, interesseiros, provocadores e outros falam ou escrevem sobre o desaparecimentro da ETA. Incluindo eu. Infelizmente ainda não li uma palavra do ex-presidente do Governo basco, Ibarretxe. Ele tinha um caminho, um caminho dinamitado a meias entre a ETA e a coligação PSOE/PP. E infelizmente também ainda não ouvi Otegi, que está preso aquela cena da liberdade, estão a ver?), e não pode repetir que a ETA “sobra e estorva”, porque ela já saiu do caminho. Do caminho longo e sinuoso que todos têm de percorrer."

 

Filinto Melo



publicado por jorge c. às 11:18
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Sábado, 22 de Outubro de 2011
Breves notas políticas

Gerou-se, a certa altura, a ideia de que qualquer um pode ser um líder se cumprir escrupulosamente as normas consagradas nas 500 bíblias sobre o tema liderança. Daí que, quando olhamos para a Assembleia da República, nos assustemos. Já aqui o disse: Passos e Seguro.

Num período de crise, de desconfiança e insegurança, seria fundamental que o Primeiro-ministro transmitisse confiança e tranquilidade aos portugueses. Há compromissos para cumprir e o Governo deveria estar totalmente seguro das medidas que apresenta para responder a esses compromissos. Ora, não parece estar.

A grande maioria dos portugueses tem uma expectativa legítima chamada Estado Social. Há quem ache que isto é um dogma em que não se pode tocar. Não é verdade. O mundo muda, a realidade transforma-se. A História ensina-nos que não devemos ter nada por certo. No entanto, a um governante cabe o papel de indicar o caminho a seguir em momentos difíceis, sem hesitações e posições dúbias, principalmente quando se trata de frustrar aquelas expectativas. As pessoas compreenderiam melhor o sacrifício se o caminho a seguir não fosse tão duvidoso.

Há nas lideranças uma característica fundamental: a decisão. Acontece que a decisão não é a característica em si mesma. Para decidir é preciso estar preparado e saber o que decidir. Disse muitas vezes de José Sócrates que a determinação não era um programa político.

O que temos neste momento é um Primeiro-ministro que diz que lidera e um País que não o vê assim. Será bom para aprendermos na altura de escolher quem nos deve liderar. Não terá sido por falta de aviso. Mas quem começa por desculpar os seus, por serem da casa, depois terá de aguentar, obrigatoriamente, os dos outros. É uma chatice chamada democracia. Não lhe queiram mudar as regras agora.



publicado por jorge c. às 12:19
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Domingo, 16 de Outubro de 2011
Da indignação

As novas medidas de austeridade anunciadas ontem pelo Primeiro-ministro foram motivo suficiente para se confundir uma manifestação com natureza internacional com uma indignação política local.

O que esta confusão provoca é uma descredibilização reivindicativa, porque dispersa. Apesar de intuitiva - e daí "indignação" - não deixa de existir uma instrumentalização antropofágica, em que os diferentes cadernos reivindicativos se aproveitam um dos outros para ganhar dimensão.

O grande erro desta manifestação é, precisamente, a confusão entre o desagrado com uma situação de crise internacional com o conflito políítico-partidário. As manifestações não são um fenómeno teórico mas, antes, aquilo em que se transformam. E esta transformou-se num protesto anti-governamental, mais uma vez, desvalorizando o valor da Assembleia da República e da democracia representativa.

Volto, porém, a dizer aquilo que disse a 14 de Março deste ano: o Governo não pode ignorar a insatisfação social. Um país não é uma empresa.



publicado por jorge c. às 01:07
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Domingo, 9 de Outubro de 2011
O futuro da ERC

Qualquer liderança exige coragem e determinação. No sector público esta necessidade é ainda mais exigível devido a pressões políticas. Quando isso não acontece, o mais provável é estarmos perante entidades frouxas que se deixam ir ao sabor do vento.

A nomeação de Carlos Magno para a ERC deixa-me, assim, muito desconfiado sobre o futuro desta entidade. Daquilo que vou vendo, lendo e ouvindo do distinto cavalheiro, retiro uma personagem sem grandes características; de discurso vago e sem conteúdos, cheio de lugares comuns e pouco assumido.

Podemos dizer muitas coisas de José Alberto Azeredo Lopes. Podemos dele discordar em muitas decisões. Mas, nestes últimos anos, tivemos à frente da ERC um homem com coragem em tomar decisões, que por elas deu a cara e que as discutiu com frontalidade.

Não sei se, doravante, isso irá acontecer. O tempo o dirá.



publicado por jorge c. às 21:15
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
Prioridades gourmet

A agenda setting do Governo foca-se, esta semana, no debate sobre a redução autárquica - um truque gourmet que fará, certamente, algum sentido.

No entanto, será que este é o momento oportuno para alterar uma estrutura que pouco impacto imediato terá na realidade do país e que pode, até, ter os seus custos?

Tudo isto parece um perfeito despropósito com o doce trago do populismo.



publicado por jorge c. às 23:42
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Sábado, 1 de Outubro de 2011
o critério de determinabilidade do conteúdo da norma

 

 



publicado por jorge c. às 03:39
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2011
Vitimização Impossível

Pedro Adão e Silva tem razão e não tem.

Tem razão quando diz que a discussão sobre a crise e a Europa foi desvalorizada durante o anterior Governo. Esta foi, fundamentalmente, a luta ilegítima de arredar os socialistas do poder.

Porém, não tem razão quando se refere a esse tempo com a expressão "com Sócrates". É que "com Sócrates" o argumento da crise e da Europa apareceu muito tarde, muito depois de Pinho-a-crise-acabou 2008, muito depois de orçamentos rectificativos atrás de orçamentos rectificativos e quase ao mesmo tempo do PECIV que, por acaso, não era senão uma actualização anual comum do PEC e que apenas trazia a alteração às pensões (depois acabaram por nos dizer que era exactamente o que estava no memorando da troika... nada de especial).

Uns meses antes de tudo isto, José Sócrates lá ia falando da crise internacional mas, sem se alongar muito. Como dizia Soares há umas semanas na Única, Sócrates não tinha grande cultura política. Por isso, limitava-se a repetir o que os seus conselheiros lhe iam dizendo. Tudo soava a um tremendo vazio.

Pedro Adão e Silva podia perfeitamente ter reforçado que a discussão de que fala é, agora, extemporânea e que muita gente alertou para isso numa altura em que se podia ter feito algo significativo. Não pode é colocar a questão com Sócrates na frente de um pensamento que o próprio parecia desconhecer e com o qual nada fez, de facto.

 

Adenda: O João Pinto e Castro alerta-me, num comentário, que a afirmação de Manuel Pinho é de 2006, pelo que deixa de fazer sentido o meu sarcasmozinho sobre essa questão.



publicado por jorge c. às 22:59
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011
Divide et impera

Existem duas maneiras legítimas de fazer oposição em democracia, compatíveis entre si: demonstrar o erro ou promover uma estratégia dissimuladamente. A segunda será mais difícil quando na governação está um executivo simples e sólido, ainda que minoritário. Nesse caso, como aconteceu há uns meses, só uma união entre facções divergentes (esquerda e direita) poderá ter sucesso para derrubar um Governo. Esta solução é arriscada; dir-se-ia contraproducente. No entanto, será mais fácil quando se trata de um Governo de coligação onde a fronteira ideológica está perfeitamente definida, tal como no momento actual.

A estratégia que é, hoje, evidente para derrubar o Governo, apesar de não trazer novidade, é muito interessante. Mais interessante do que a anterior, que é apenas feia. Ela passa, essencialmente, por empurrar um dos elos da coligação contra o outro, criando-lhe a dúvida sobre o seu valor executivo. Isto é quase Oteliano (ou Shakespeariano, se preferirem). Na esperança de derrubar um Governo por outros meios que não as eleições, a oposição actual tenta que seja, antes, o Governo a derrubar-se a si mesmo. O BE, por exemplo, chega mesmo a permitir-se participar nesta demanda ao lado dos que lhe chamaram irresponsável e inconsciente por alturas da sua famosa moção de censura ao executivo anterior (repare-se que eu tento, sem habilidade, aplicar a mesma estratégia).

Otelo não aguentou a pressão que lhe foi induzida por Iago. A dúvida e a consequente revolta acabariam por triunfar e derrubar o próprio Mouro. Contudo, Iago nunca se deixou apanhar.



publicado por jorge c. às 00:51
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Domingo, 4 de Setembro de 2011
Uma constatação

Vejo mais pessoas do PSD indignadas com o Governo em funções, do que socialistas a reconhecerem erros do Governo anterior. Just sayin'.



publicado por jorge c. às 10:34
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Domingo, 14 de Agosto de 2011
History Repeating

Aquando das eleições, previ que uma inversão de papeis no poder, entre as claques, seria um dos factos mais cómicos da alteração governativa. Ora, é vê-los. É de perguntar: como é que é possível? Como é que se consegue virar o discurso do avesso, com as costuras a verem-se, sem pestanejar, com o maior dos descaramentos, e chamar a isso "combate político"? É incompreensível. Ver amigos a sujeitarem-se a esse papel, quando os respeitamos e nos dispomos a discutir com eles por acreditar que vale a pena, é ainda mais constrangedor.

Mas, este desabafo não se perde no desgaste da desilusão. Há algo mais importante que esta tontice do descaramento sectário. A presença de um governo à direita levanta sempre uma nuvem de pó que roça a falta de bom senso. Temos (plural majestático) chamado a isso a diabolização da direita. Vem aí o grande monstro que vai acabar com o Estado Social. Ora, o Estado Social não é uma coisa estanque. Diz-se isto como se o Estado Social fosse a democracia em si e por si. Sejamos mais objectivos e focados: defendemos uma democracia, logo, o seguimento das políticas governativas não é um ataque a nada. O Estado Social tornou-se o dogma do séc. XXI. É escusado apelidar as pessoas de salazarentas só por causa disso. Parece-me excessivo, sei lá. Infantil, diria.

Por outro lado, a concentração da austeridade (que é assim que agora se chama ao artist previously known as "medidas impopulares") no cidadão de bem, comum, de bom aspecto, não é uma boa causa para reduzir gorduras, como se diz por aí. Se o Estado é gordo, façam-lhe um programa de emagrecimento com exercício e não lhe ponham uma banda gástrica.

Este período que iremos viver nos próximos tempos será insuportável. A austeridade sentir-se-á menos do que a histeria. Não contem comigo.



publicado por jorge c. às 09:41
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2011
O trigo e o joio

Gosto de Francisco Assis. Gosto, sobretudo, do orgulho e da coragem com que afirma ser um político. Assis tem uma noção da política que me é muito cara, não obstante o que nos separa ideologicamente. Acima de tudo, é uma visão ampla da política, sobre a estrutura e instrumentalidade do debate político.

Estas eleições internas do PS são, por isso mesmo, bem mais interessantes do que as que opuseram Sócrates a João Soares e Manuel Alegre. A sua principal tónica está naquilo que distingue um bom político de um político ligeiro. É um frente-a-frente entre a política inteligente, estruturada e de conteúdos e a vacuidade e futilidade do aparelhismo medíocre de que António José Seguro é, hoje, um rosto visível.

Não que o debate actual do PS seja interessante mas, há algumas discussões que podem ter uma enorme relevância para pensarmos melhor o tipo de política com que queremos viver. E não estando muito certo de que a proposta de Assis para primárias dentro do PS seja viável, é, no entanto, uma excelente discussão porque nos permite questionar quais as melhores formas de promovermos a participação e a cidadania ou, até, de termos noção dos índices de interesse que os cidadãos revelam. Contudo, não posso deixar de recear um resultado contraproducente e o caminho para o triunfo descontrolado do populismo. Teoricamente, a ideia é boa, admito. Na prática, pode ser um problema sério.

Outra questão levantada por Assis é a da afectividade. Pego aqui num post do Serras, por falta de link para as declarações de Francisco Assis que acabei por não ouvir. É cada vez mais importante demonstrar que a política não é um jogo de afectos. É certo que nos devemos empenhar. Mas, que isso nunca se confunda com afectividade, com emoções que, como o próprio diz, fazem parte de um universo privado, de relações pessoais sujeitas a outras regras. Nos últimos anos, isto tem destruído o debate político.

O Partido Socialista só tem a ganhar com Assis e a direita teria aqui um desafio muito interessante e um contributo para melhorar. Porque é também com os nossos adversários que aprendemos, para mal e para bem.



publicado por jorge c. às 00:02
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Sábado, 9 de Julho de 2011
Lixo

Ouvi há pouco Vitor Bento dizer que adjectivar as agências de rating, sem apresentar dados concretos que as contrariem, de nada vale. Os portugueses reagiram como se de um ataque patriótico se tratasse, mas não sabem se o seu Estado tem ou não capacidade para pagar a sua dívida. É verdade que as agências de notação financeira têm uma história recente que as descredibiliza. No entanto, ninguém nos garante que estamos em condições de responder às nossas responsabilidades. Sabemos que um plano de austeridade deveria acalmar os mercados ou, pelo menos, deveria dar-nos algum tempo para tranquilizar os nossos credores. Mas, também sabemos que esta austeridade é incompatível com o crescimento económico.

Os principais partidos portugueses têm-se atacado mutuamente, como se esta guerra fosse local, fosse entre a esquerda e a direita. Gente estúpida. O PS acusa o PSD de ter mudado de postura e de só agora criticar as agências de rating. O PSD acusa o PS de ter conduzido o país à bancarrota. Ambos ignoram a realidade.

Por um lado, o PS faz de conta que, enquanto esteve no governo, esteve sempre dentro do assunto. Ora, se o PEC 4 era o que estava no programa da troika, então o PS também aplicaria austeridade e esse mesmo PEC significava que os socialistas também não estavam seguros da capacidade de resposta. Seguindo uma política de austeridade, os socialistas também iriam travar o crescimento (que é o que defendem), mas certamente continuariam a discursar sobre "o problema sistémico do euro" como se nos últimos 6 anos não estivessem no governo e, como tal, dentro da discussão europeia. Conversa fiada e desonestidade intelectual - bem-vindos ao partido mais sectário do país.

O PSD na sua total ignorância das questões internacionais, como se viu ao longo da campanha, em que nem sequer no assunto tocou, vem agora abrir a cara de espanto por causa das agências que tanto o ajudaram a chegar ao governo. As reacções que se ouviram por aí são de uma indignação patriótica bacoca, serôdia, e de total incompreensão do que se está a passar. Bem-vindos ao partido menos preparado para governar do país.

Sei muito pouco de matéria financeira e económica. Mas, há uma coisa que ainda sei fazer: juntar dois mais dois. 



publicado por jorge c. às 13:03
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2011
As nossas mulheres

Há, nos últimos dias, mais um tipo de conversa que a-d-o-r-o: as mulheres na política. De repente, com a eleição de Assunção Esteves, parece que voltou aquele velho chavão feminista serôdio de que "mulheres na política é que é". Contra a opressão, diz a própria Assunção Esteves.

É um tipo de conversa que me enjoa por ser redutor e por não avaliar aquilo que de facto é essencial. Na política quero pessoas competentes. Pouco me importa que sejam homens ou mulheres. O que não quero é que sejam colocadas pessoas em cargos por causa do seu género, independentemente de qual seja.

Se há algum problema com as mulheres na política é, muitas vezes, a sua pouca mobilização. É claro que a sociedade continua a ser sexista, não é isso que está em causa. Até há uns anos atrás, em média, as mulheres recebiam menos 30% do que os homens para ocupar um mesmo posto com a mesma responsabilidade. Isto sim, uma preocupação.

No meu universo pessoal, por exemplo, encontro mais mulheres a dizer que não gostam de discutir política do que homens. Não é significativo, mas ajuda-me a compreender que, acima de tudo, é um problema cultural, venha ele de onde vier. A luta parte das mulheres, é um facto. Mas não pode passar pela vitimização e a espera de que umas quotas resolvam um assunto, que está a montante, para devolver a dignidade do género. É uma absoluta falta de noção da vida no geral. Causas fracturantes, com toda a tonalidade do desprezo que a expressão possa ter.



publicado por jorge c. às 10:51
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Ah! os independentes, os independentes!

Como quase em tudo, nunca usamos da adequação quando nos colocamos numa postura crítica sobre o que quer que seja. Com os independentes a história repete-se. Por um lado há os que acham que a política deveria ter mais independentes, em contraponto a esses bandidos dos políticos. Por outro, temos os que acreditam que só alguém com um certificado de habilitações políticas pode ser parte integrante do regime político-partidário.

Ser independente em política não é uma característica, por si só, positiva ou negativa. As pessoas, no geral e em abstracto, ou têm capacidades políticas ou não têm. Ser independente significa apenas que não se tem uma ligação partidária formalizada. Isto não é bom, nem é mau. Acontece que há pessoas que não querem ter essa ligação. É um direito que lhes assiste. Contudo, dispõem-se a exercer cargos políticos porque, em rigor, têm capacidades que operam nesse sentido. Ou pelo menos, supõe-se que têm. Porque não faz qualquer sentido alguém que não tenha uma dimensão política exercer um cargo que é, por natureza, político.

A conversa dos independentes, no sentido positivo, tem o toque da demagogia, da preponderância popular. Já no seu sentido mais negativo, ela ganha contornos de sectarismo e de clausura partidária. Ora, isto não faz qualquer sentido. A actividade política exige características que têm que ver em exclusivo com a sua natureza, não obstante os seus actores não terem obrigatoriamente de estar vinculados a um partido. Seria simples compreender, não fosse a má vontade.



publicado por jorge c. às 00:57
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
Antes de o ser já o era

Há, neste momento, algo que me interessa mais observar na formação do novo governo do que a qualidade ou o falhanço total do colégio. É precisamente estes juízos que me atraem mais. Através deles conseguimos perceber mais o sectarismo e entender que dele nada de bom nasce.

Tenho uma teoria que só conseguimos ter uma noção exacta das consequências políticas da formação de um governo um ano e meio depois do seu início de funções. Dois, no máximo. É difícil fazer uma avaliação clara e objectiva num curto período de tempo. Como tal, qualquer juízo que seja feito nesta altura é prematuro e revela apenas o desinteresse que existe pela conformação governamental. A guerra está única e exclusivamente nas personalidades e na camisola que vestem. Isto poderá ter, efectivamente, uma relevância no campo ideológico. Mas, na verdade um governo é essencialmente a execução das suas políticas, a conformação executiva, sendo que isso depende muito da tendência dos tempos. Daí que em política a incoerência possa ser, de certo modo, desvalorizada (umas vezes para bem, outras tantas muito pelo contrário).

Reagir a quente à formação de um governo não revela muito mais do que o desinteresse pelas questões da política e da sua natureza e uma preponderância do interesse egoísta e fútil. É isso que é o sectarismo. Vamos sempre a tempo de mudar.



publicado por jorge c. às 22:23
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
Como as coisas se fazem

Tenho apontado a falta de estratégia política, de programas e agendas bem definidas, como um dos principais problemas do empobrecimento da democracia representativa nos últimos anos. Identifiquei a forma como as comissões políticas são escolhidas como a base deste problema. Quem conhece bem a estrutura dos partidos sabe bem como é que se conseguem votos: um homem vale dez votos, esses 10 valem 50 e por aí fora e depois conquistam-se com ofertas de lugares e atenção. Porque há muita gente que só precisa de atenção e de 5 minutos de palanque. Foi esta a conversa que tive no pequeno-almoço do passado dia 5 com um amigo enquanto concordávamos que este esquema aliado à falta de noção do que é o serviço público, a causa pública, são uma mistura explosiva que tem pervertido a natureza eleitoral interna dos partidos. Um político que está demasiado preocupado em conquistar território e esquece as necessidades básicas de um espaço mais amplo acaba por preferir o essencial ao acessório, a forma à matéria. Quem domina as distritais e concelhias, por norma, tem mais hipótese de vencer. E é isto que se poderá estar a passar aqui.

O que aconteceu antes é que estes que agora sobem ao topo do poder foram os lacaios daqueles que há uns anos não queriam perder tempo com o assunto. Lembrar-se-ão certamente que José Sócrates foi vice-rei de Guterres para este tipo de matérias nas Beiras e que Passos Coelho dominava o aparelho das jotinhas antes de ser conhecido pelos seus dotes vocais. Isto é, seguramente, o que melhor sabem fazer. António José Seguro não foge à regra e é muito provável que não saiba, de facto, fazer outra coisa. Isto vê-se pelo conjunto de vacuidades que enfeitam o seu não-discurso político.

Mas a culpa não pode ser só desta espécie de hienas da política. Há muita responsabilidade de quem se demitiu de participar, de levantar a discussão e de levar os programas dos partidos à discussão com as bases. Uma arrogância centralista que permitiu o caciquismo e os esquemas rasteiros. Também há muita responsabilidade naqueles que se demitiram de militar os partidos com a arrogância do distanciamento da política, como se a qualidade dos nossos agentes políticos caísse do céu.

Dizer água vai nestas matérias é quase sempre inconsequente. O problema destes surdos é o excesso de confiança na sorte e não a audição propriamente dita.

 



publicado por jorge c. às 18:41
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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011
Les jeux sont faits

Das causas e consequências das legislativas que deram a vitória ao PSD já se disse tudo e mais um par de botas, certamente. Vai ser interessante observar as movimentações dos apoiantes que tentam influenciar a opinião pública de ambos os lados - governo e oposição. O relativismo em questões de princípio fascina-me mais do que o Deer Hunter.

Sabemos para já que "o estado em que o PS deixou o país" is the new black. Também sabemos que "a maior crise financeira dos últimos 80 anos" vai ser substituída pela "crise política com consequências gravíssimas para o país que se estão agora a manifestar". Quatro anos disto. Vai ser giro. Ainda não começou e eu já estou com vontade de ir lá fora fumar um cigarro e tomar um cafezinho, como o bom funcionário que mal senta o rabo na cadeira já está a caminho da porta outra vez. A ideia da rotina cansa-nos mais do que a rotina em si mesma.

O clima de desconfiança que paira sobre a classe política é um fruto do que se passou nos últimos seis anos. Não há inocentes. Os partidos e os seus mais ferozes apoiantes transformaram o debate político de uma democracia em crescimento num jogo irresponsável de soundbites sem conteúdo e de ruído fútil. A facilidade com que se descredibilizam certas personalidades, o desleixo e a insensatez com que certas personalidades se deixaram descredibilizar ou até a falta de um pensamento estratégico com que se olhou para a política nacional nos últimos anos corrompeu a opinião pública. E o triunfo do sectarismo, da propaganda e da contra-propaganda dominaram a acção, prevalecendo sobre o interesse público.

Não se pode pensar um partido político em democracia sem estratégia. Não há estratégia sem comissões políticas e trabalho colegial. Vencer eleições internas dos partidos pelo culto e pelo combate da personalidade vai influir nas lideranças e enfraquecê-las na sua função nuclear. É precisamente neste ponto que a democracia representativa ganha fragilidades que a põem em xeque perante a opinião pública e que crescem movimentos de descontentamento que colocam em causa a natureza do nosso sistema democrático.

Com efeito, depende da forma como encaramos tudo isto a sobrevivência de um regime que é, aparentemente, consensual. Depende, acima de tudo, da forma como nos mantemos fieis a convicções e princípios e não a um símbolo que pouco representa os seus, sequer. Contra o relativismo marchar, marchar.



publicado por jorge c. às 00:25
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