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Manual de maus costumes

Manual de maus costumes

04
Dez11

Da política

jorge c.

Não sou propriamente um Sá-Carneirista. Cresci no cavaquismo e fiz-me militante do PSD com Marcelo Rebelo de Sousa. Não entro, por norma, no sebastianismo anacrónico do founding father social-democrata. Tenho, contudo, uma enorme admiração pela sua visão e pela forma como pensou a democracia. Revejo-me nisso.

Assim, lembro Sá Carneiro, hoje, num tempo em que não existe filosofia e visão estratégica. As lideranças estão a trabalhar o momento, sem cultura política e democrática. Francisco Sá Carneiro representa um político com uma ideia política para uma sociedade política. Não é ele que faz falta, mas sim o que ele representa.

08
Nov11

Notas de actualidade

jorge c.

1. As declarações e posições do Governo sobre política de transportes têm sido, nas últimas semnas, desastrosas. Um Secretário de Estado ou um Ministro não podem ter opiniões de taberneiro sobre um assunto que define, em rigor, os índices de urbanidade de um país. A política de transportes do Estado não é um negócio, é uma necessidade. Os riscos de prejuízo são altos e a discussão tem de ser feita. O que não pode acontecer é que a posição subjectiva de um governante que acordou revoltado com os transportes prevaleça sobre as reais necessidades da população. O taxismo começa a ser uma realidade assustadora na linguagem da governação.

 

2. A Greve Geral não pode ser encarada como um atentado ao desenvolvimento do país. Na base da Greve está uma reinvindicação legitimamente definida pelos trabalhadores e sem interferência do Estado, tal como dispõe o art. 57º da CRP. Não se trata, portanto, de um posicionamento político sobre uma atitude mas, antes, uma atitude sobre um posicionamento político. Os grevistas sabem, antes de mais, que qualquer despropósito reivindicativo pode valer-lhes a falta de solidariedade dos outros cidadãos, o que seria contraproducente. Uma greve é um direito e a esse direito corresponde directamente um dever, o da salvaguarda de um Estado de Direito Democrático.

 

Por favor, não percam a memória.

03
Nov11

Para uma ideia de Europa

jorge c.

As incertezas, vividas por estes dias, sobre o futuro da União Europeia reflectem, de certo modo, a falta de desígnio de um projecto que deixou de se discutir. Não pode haver projecto europeu sem um desígnio, sem objectivos perfeitamente definidos.

Os Estados-membros vivem, assim, uma crise existencial: deverão responder às exigências da União ou às exigências dos seus eleitores que, cada vez mais, desconfiam da direcção seguida? Havendo uma direcção, não é claro quem a esteja a liderar. A Comissão Europeia tem perdido voz de liderança para o eixo franco-alemão nas conversações diplomáticas.

É certo que em situações de emergência, discutir filosoficamente o futuro da UE não é uma prioridade. Contudo, se essa discussão não se tornar uma realidade e não apresentar soluções imediatas, é legítimo que países reféns dos seus próprios resgates financeiros, optem por abandonar um não-projecto e renascer das cinzas.

Em política, nada sobrevive sem um poder de decisão. Nenhum projecto é verdadeiramente um projecto sem definição de objectivos e regras imperativas, com uma estrutura hierárquica clara e inteligível. Assim, cabe aos Estados decidirem sobre o seu próprio futuro. Se isso significar o fim da UE, não é senão uma consequência lógica da falta de rumo.

Será caso para pegar num chavão, um tenebroso lugar comum que, agora, fará todo o sentido: as pessoas primeiro.

23
Out11

O caminho faz-se a caminhar ou assim

jorge c.

Pedi ao Filinto que me desenhasse a sua perspectiva do actual momento político em Espanha, depois do anúncio da ETA. Pedi-lhe porque, ao longo destes anos em que vamos caminhando juntos, de lados opostos, mas com a mesma intenção, o Filinto é a pessoa cuja opinião sobre o assunto é, para mim, a mais credível. Aqui fica então, com o meu agradecimento e a devida vénia:

 

"A ETA tem sido um dos grandes temas das diversas campanhas eleitorais para as cortes de Madrid, desde que as há. E com a excepção da derrota de Felipe González para José María Aznar, em que se debateu a taxa de desemprego acima dos 20 por cento que o socialista deixou, a ETA foi sempre o tema central.

Estas eleições de 2011 preparavam-se para voltar a retirar a ETA do centro do debate, porque um outro socialista, Zapatero, liderou um governo que voltou a deixar subir a fasquia dos desempregados acima dos 20 por cento – e também porque havia um cessar-fogo e porque os candidatos (Oreja e Rubalcaba) têm os seus galões no combate à ETA. Contudo, a ETA gosta de aparecer. E apareceu, para dizer que vai desaparecer. Desde logo, houve malucos do PP que consideraram que o anúncio era um truque. E ao mesmo tempo que era a prova -- percebia-se esta tese sem dificuldade no El Mundo, no La Razon e no Libertad Digital -- de que o governo socialista tinha estado a negociar com a ETA. A negociar um truque, claro. Enfim!

Depois chegaram os malucos do PSOE: "Finalmente, desde 1936, a liberdade chegou aqui", dizia num comício sábado de manhã o ex-presidente da câmara de San Sebastian. Pretendia santificar a República? Vingar-se da derrota eleitoral para os independentistas da Bildu? Não, apenas um truque eleitoral, claro.

Enquanto PP e PSOE tentam alinhar os discursos para descobrir a melhor maneira de sacar votos depois do anúncio da ETA, um sem-número de malucos, idiotas, crentes, descrentes, ignorantes, especialistas, interesseiros, provocadores e outros falam ou escrevem sobre o desaparecimentro da ETA. Incluindo eu. Infelizmente ainda não li uma palavra do ex-presidente do Governo basco, Ibarretxe. Ele tinha um caminho, um caminho dinamitado a meias entre a ETA e a coligação PSOE/PP. E infelizmente também ainda não ouvi Otegi, que está preso aquela cena da liberdade, estão a ver?), e não pode repetir que a ETA “sobra e estorva”, porque ela já saiu do caminho. Do caminho longo e sinuoso que todos têm de percorrer."

 

Filinto Melo

22
Out11

Breves notas políticas

jorge c.

Gerou-se, a certa altura, a ideia de que qualquer um pode ser um líder se cumprir escrupulosamente as normas consagradas nas 500 bíblias sobre o tema liderança. Daí que, quando olhamos para a Assembleia da República, nos assustemos. Já aqui o disse: Passos e Seguro.

Num período de crise, de desconfiança e insegurança, seria fundamental que o Primeiro-ministro transmitisse confiança e tranquilidade aos portugueses. Há compromissos para cumprir e o Governo deveria estar totalmente seguro das medidas que apresenta para responder a esses compromissos. Ora, não parece estar.

A grande maioria dos portugueses tem uma expectativa legítima chamada Estado Social. Há quem ache que isto é um dogma em que não se pode tocar. Não é verdade. O mundo muda, a realidade transforma-se. A História ensina-nos que não devemos ter nada por certo. No entanto, a um governante cabe o papel de indicar o caminho a seguir em momentos difíceis, sem hesitações e posições dúbias, principalmente quando se trata de frustrar aquelas expectativas. As pessoas compreenderiam melhor o sacrifício se o caminho a seguir não fosse tão duvidoso.

Há nas lideranças uma característica fundamental: a decisão. Acontece que a decisão não é a característica em si mesma. Para decidir é preciso estar preparado e saber o que decidir. Disse muitas vezes de José Sócrates que a determinação não era um programa político.

O que temos neste momento é um Primeiro-ministro que diz que lidera e um País que não o vê assim. Será bom para aprendermos na altura de escolher quem nos deve liderar. Não terá sido por falta de aviso. Mas quem começa por desculpar os seus, por serem da casa, depois terá de aguentar, obrigatoriamente, os dos outros. É uma chatice chamada democracia. Não lhe queiram mudar as regras agora.

16
Out11

Da indignação

jorge c.

As novas medidas de austeridade anunciadas ontem pelo Primeiro-ministro foram motivo suficiente para se confundir uma manifestação com natureza internacional com uma indignação política local.

O que esta confusão provoca é uma descredibilização reivindicativa, porque dispersa. Apesar de intuitiva - e daí "indignação" - não deixa de existir uma instrumentalização antropofágica, em que os diferentes cadernos reivindicativos se aproveitam um dos outros para ganhar dimensão.

O grande erro desta manifestação é, precisamente, a confusão entre o desagrado com uma situação de crise internacional com o conflito políítico-partidário. As manifestações não são um fenómeno teórico mas, antes, aquilo em que se transformam. E esta transformou-se num protesto anti-governamental, mais uma vez, desvalorizando o valor da Assembleia da República e da democracia representativa.

Volto, porém, a dizer aquilo que disse a 14 de Março deste ano: o Governo não pode ignorar a insatisfação social. Um país não é uma empresa.

09
Out11

O futuro da ERC

jorge c.

Qualquer liderança exige coragem e determinação. No sector público esta necessidade é ainda mais exigível devido a pressões políticas. Quando isso não acontece, o mais provável é estarmos perante entidades frouxas que se deixam ir ao sabor do vento.

A nomeação de Carlos Magno para a ERC deixa-me, assim, muito desconfiado sobre o futuro desta entidade. Daquilo que vou vendo, lendo e ouvindo do distinto cavalheiro, retiro uma personagem sem grandes características; de discurso vago e sem conteúdos, cheio de lugares comuns e pouco assumido.

Podemos dizer muitas coisas de José Alberto Azeredo Lopes. Podemos dele discordar em muitas decisões. Mas, nestes últimos anos, tivemos à frente da ERC um homem com coragem em tomar decisões, que por elas deu a cara e que as discutiu com frontalidade.

Não sei se, doravante, isso irá acontecer. O tempo o dirá.

03
Out11

Prioridades gourmet

jorge c.

A agenda setting do Governo foca-se, esta semana, no debate sobre a redução autárquica - um truque gourmet que fará, certamente, algum sentido.

No entanto, será que este é o momento oportuno para alterar uma estrutura que pouco impacto imediato terá na realidade do país e que pode, até, ter os seus custos?

Tudo isto parece um perfeito despropósito com o doce trago do populismo.

20
Set11

Vitimização Impossível

jorge c.

Pedro Adão e Silva tem razão e não tem.

Tem razão quando diz que a discussão sobre a crise e a Europa foi desvalorizada durante o anterior Governo. Esta foi, fundamentalmente, a luta ilegítima de arredar os socialistas do poder.

Porém, não tem razão quando se refere a esse tempo com a expressão "com Sócrates". É que "com Sócrates" o argumento da crise e da Europa apareceu muito tarde, muito depois de Pinho-a-crise-acabou 2008, muito depois de orçamentos rectificativos atrás de orçamentos rectificativos e quase ao mesmo tempo do PECIV que, por acaso, não era senão uma actualização anual comum do PEC e que apenas trazia a alteração às pensões (depois acabaram por nos dizer que era exactamente o que estava no memorando da troika... nada de especial).

Uns meses antes de tudo isto, José Sócrates lá ia falando da crise internacional mas, sem se alongar muito. Como dizia Soares há umas semanas na Única, Sócrates não tinha grande cultura política. Por isso, limitava-se a repetir o que os seus conselheiros lhe iam dizendo. Tudo soava a um tremendo vazio.

Pedro Adão e Silva podia perfeitamente ter reforçado que a discussão de que fala é, agora, extemporânea e que muita gente alertou para isso numa altura em que se podia ter feito algo significativo. Não pode é colocar a questão com Sócrates na frente de um pensamento que o próprio parecia desconhecer e com o qual nada fez, de facto.

 

Adenda: O João Pinto e Castro alerta-me, num comentário, que a afirmação de Manuel Pinho é de 2006, pelo que deixa de fazer sentido o meu sarcasmozinho sobre essa questão.

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