Segunda-feira, 14 de Junho de 2010
Depoimento de um rapaz europeu - 25 anos de aderente

Sou um rapaz português que cresceu mais tempo dentro da Europa do que fora dela. Como todos os outros rapazes e raparigas da minha geração fui ganhando expectativas. Mas, ao contrário dos senhores que dizem coisas relativamente importantes por esses meios de comunicação fora, não encaro o 25º aniversário da nossa adesão à UE como uma questão do interior para o exterior, mas sim o contrário.

 

O que ganhou Portugal? O que ganharam os portugueses? Certamente que muita coisa. Mas para a minha geração não é tanto o crescimento que interessa, mas sim o desenvolvimento do país em termos que nos permita crescer enquanto cidadãos e nos possibilite uma maior qualidade de vida. Olhando em volta reparamos com algum desgosto que a qualidade de vida dos portugueses pode ter melhorado no que diz respeito ao consumo, mas tem-se degradado psicologicamente e até socialmente. Há menos cidadania e há mais egoísmo e ressentimento.

 

Não se trata apenas da má aplicação dos fundos comunitários - a péssima, aliás - mas também da má aplicação das directivas, a desproporcionalidade, a insensatez e o desfazamento com que algumas directivas foram sendo aplicadas. Para não falar na intempestividade e na falta de autoridade moral.

 

Poucos se sentem europeus. Poucos se sentem com condições de se sentirem europeus. E esse problema da qualidade de vida que afecta essencialmente os mais idosos, as famílias de classe média cada vez menos média, os adolescentes na definição do seu futuro e os recém-licenciados vai projectar-se num desenvolvimento social e cultural insuficiente que não fortalece a Europa, mas sim que a distancia de si mesma e a enfraquece no seu espírito comunitário e na tão pretendida solidariedade.

 

Que contributo estamos nós a dar para o futuro desta Europa? Era esta pergunta que o Estado e os cidadãos deveriam fazer mais vezes. Porque sem um país sólido e solidário de nada adianta pretender uma Europa com as mesmas características.



publicado por jorge c. às 13:12
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Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
A recepção esperada

Há dois ou três dias dir-se-ia que estávamos numa competição a ver quem é que tinha mais gente: a facção ateia ou a católica. Nervosos e irritados, os ateus multiplicaram-se em ataques agudos à Igreja e a Bento XVI. Bastou a chegada do Papa para que se parasse um pouco para o ouvir e acabar com esse ruído e com todas as dúvidas. Os portugueses responderam em massa à visita de Bento XVI que, por sua vez, revelou a sua inteligência e generosidade e mostrou a linguagem universal da Igreja e a sua mundividência. O Estado respondeu em conformidade, face a uma instituição que é parte integrante da nossa natureza, da nossa cultura e da nossa estrutura moral.

As facções são uma ilusão porque o Papa fala para todos os que se dispuserem a ouvir. Tentar entrincheirar as pessoas, dividir os homens para conquistar um qualquer caminho incerto, é só uma demonstração de ignorância intolerante que não encontra apoio na maioria dos portugueses, não obstante a sua legitimidade.



publicado por jorge c. às 13:01
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Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
Piores dias virão

Mais de 20 anos de más políticas, no que diz respeito à aplicação dos fundos comunitários, são parte do problema criado por Portugal para hoje ter índices de crescimento económico tão baixos. Sair de uma crise financeira exige uma estrutura de base que impulsione nos vários sectores a produção de bens que possibilite a criação de postos de trabalho, a capacidade de exportação e por aí fora. Portugal não tem onde se agarrar. A agricultura não existe, o tecido empresarial no Vale do Sousa, do Ave e da região de Setúbal e Alverca faliu. A falta de visão estrutural e global dos governos desde Cavaco Silva, passando por António Guterres, Durão Barroso e José Sócrates, que personificam o Estado nas suas decisões, conduziu o país a um ponto sem retorno.

 

A presença numa união monetária deve exigir responsabilidades. A senhora Merkel tem a sua razão quando, lá no aconchego da sua casa, pensa em expulsão de incumpridores. Os países da UE receberam muito dinheiro durante mais de 20 anos. Esse dinheiro não cai do céu. Restam três possibilidades: continuar na mesma e subsidiar os incumpridores, expulsar os incumprimdores da moeda única, correndo o risco de terminar com a União, ou então criar novas regras e políticas financeiras directas com poder de decisão orçamental.

 

Continuar na mesma conduzirá inevitavelmente a um decréscimo da qualidade de vida da maioria dos europeus, mesmo daqueles que hoje não sentem a crise com tanta gravidade, criando um abuso do princípio da solidariedade. Expulsar os países que entram em incumprimento da moeda única é um atentado contra esse princípio da solidariedade que norteia a União Europeia e seria condená-la ao fim. Uma nova política unitariamente mais agressiva e directa supõe a ingerência nas políticas orçamentais dos Estados-membros. O panorama político ficou dependente do panorama económico e preso aos seus desígnios. Não vale a pena culpar o capital, mas sim a ignorância na relação com o capital, a má relação com a realidade social e cultural dos países e a megalomania progressista e imprudente.

 

 

Adenda: acabo de ler este post curioso do Miguel Morgado que vai muito ao encontro do que aqui escrevi com a vantagem de ser mais rigoroso.



publicado por jorge c. às 13:27
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Do miserabilismo

Os dois últimos encontros entre FC Porto e Benfica provocaram confrontos graves entre adeptos que só não tiveram piores resultados por mero acaso. O clima de terror e impunidade criado pelas claques fez com que muita gente como eu evitasse ir ao Estádio do Dragão ver um jogo de futebol. Já muito se falou e escreveu sobre este assunto, mas poucos falam no renascimento crescente do regionalismo bacoco criado pela rivalidade clubística. Se hoje, pelos cafés, se critica tudo - são todos responsáveis, dizem - logo o assunto muda e tenta encontrar-se na contraparte um motivo qualquer para desculpar o nosso lado. Os adeptos dos clubes são instrumentalizados pelos dirigentes desportivos (sim, eu sei que parece ridículo) e promovem um ambiente de pré-guerra civil ignorando factos, ignorando a realidade e preferindo uma lógica macaca de perseguição contra o seu clube e que não é senão perseguição regional. Incrível!

 

É neste sentido que vem esta entrevista de Jorge Nuno Pinto da Costa. Relegado para o terceiro lugar do campeonato, depois de vários erros cometidos na administração do clube desde contratações, prémios para administradores, comissões de transferências de jogadores, etc, o presidente do FC Porto vem agora incendiar a rivalidade já por si preocupante e aumentar o clima de tensão e desconfiança regionalista. Com uma visível falta de seriedade e com o objectivo claro de tentar ganhar vantagens para o clube, Pinto da Costa parte de acusações ridículas e até a preferência clubística do Primeiro-ministro é alvo da sua vitimização calculista e desonesta. Veja-se o que diz de Rui Rio. Tudo aquilo que Pinto da Costa diz do Presidente da CMP cai no total disparate quando verificamosc quem foi o autarca português que se manifestou publicamente contra a exclusividade do pagamento das SCUT's pela região norte, ou quando os portugueses viram as verbas do QREN serem desviadas para projectos de interesse nacional em Lisboa. Mas, toda a entrevista é um tratado de má-fé e desonestidade intelectual. Repare-se nesta frase: "Se houvesse um movimento de pessoas a lutar pela regionalização, eu acreditava mais". No contexto de que é retirada, percebe-se bem que a intenção de Pinto da Costa em toda a entrevista foi incentivar o separatismo para que de futuro, com a possibilidade de uma região, não haja nenhuma voz "contra o FCP". E para esta criatura estar contra o FCP foi aquilo que Rio fez. Ora, se nos recordarmos bem do que Rio fez, veremos que o Presidente da CMP apenas retirou benefícios ao clube e o colocou em pé de igualdade com os outros clubes da cidade no que ao tratamento diz respeito e acabando com uma promiscuidade entre a Câmara e o futebol que era evidente aos olhos de todos. Esses benefícios foram em grande parte atribuídos no reinado de Fernando Gomes, tão elogiado pelo portista na entrevista. É claro que uma boa parte dos adeptos, vivendo de factos inventados, foram na conversa de Pinto da Costa que alimentou um ódio por Rui Rio inexplicável porque conhecia a sua natureza no futebol.

 

Vejo, neste momento, a regionalização como uma hipótese forte e favorável à resolução de problemas das regiões. Mas depois de ver o que esta gente diz e a forma como promove o ódio e o rancor entre duas zonas do país fico muito céptico se social e culturalmente isto fará algum sentido. A violência está à vista de todos e a impunidade dos dirigentes nas declarações que fazem para incendiar as hostes é evidente. Enquanto se continuar a afirmar que um bronco como este é inteligente e culto e uma pessoa espectacular, enquanto se continuar a defender este discurso miserável e a divulgar mentiras e a promover o ódio, a violência continuará e a tendência é para aumentar.



publicado por jorge c. às 12:14
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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010
longe demais

Acabo de ouvir a declaração conjunta do Primeiro-ministro e de Pedro Passos Coelho. No meio de tanto lugar comum fico com a ligeira sensação que ninguém sabe muito bem o que fazer a não ser encenar uma estabilidade política que todos sabemos que não existe. O problema é político porque é a má política que castra a economia, que impede o desenvolvimento e a estabilidade daquilo que é o grosso do mercado português e que são as PME's. Não podemos aceitar mais desculpas e rodriguinhos. Alguém tem de se responsabilizar.



publicado por jorge c. às 13:51
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Terça-feira, 27 de Abril de 2010
Um post pessimista

Em "Portugal e o Futuro" o General Spínola fala na aparência perante os outros. Diz algo como: podemos achar que somos democráticos mas não parece ser isso que os outros acham de nós e que essa aparência deveria ajudar-nos a reflectir sobre o caminho que levamos. Estas palavras caberiam como uma luva nos dias de hoje se adaptadas às circunstâncias. A comunidade internacional parece não estar muito certa da estabilidade da economia portuguesa. O governo, por seu vez, se por um lado parece garantir de forma inequívoca que não há motivos para alarme, alturas há em que mais parece que o que está a fazer é manipulação de dados, escondendo assim a realidade das contas públicas. O cidadão parece já não acreditar em nada nem em ninguém. A opinião publicada está preocupada com casos laterais, e mesmo no Parlamento os deputados estão noutra galáxia. Primeiro-ministro não temos e é Teixeira dos Santos que aparece como o elemento do governo mais próximo dessa figura. O retrato é negro, mas há quem ache que não, sabe-se lá porquê.



publicado por jorge c. às 14:53
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010
A propriedade na esquerda

O discurso de José Pedro Aguiar Branco na sessão solene para celebrar o 25 de Abril na Assembleia da República tem recebido vários elogios dos partidários do bloco central. É natural. Aguiar Branco é um dos políticos que mais representa essa facção. Cheguei mesmo a dizer por aqui que era aquele que, bem compreendido, agradaria mais ao eleitorado tendencial do PSD, não obstante a sua falta de carisma. O discurso tem, no entanto, duas partes. Uma parte destinada a chocar e a confrontar um certo monopólio ideológico e uma outra parte a manifestar uma opção política marcando, ou tentando marcar, o território do PSD. Neste sentido estou totalmente de acordo com o que diz o Pedro Picoito. Uma coisa é tentar provocar o desconforto abrilista perante o conceito de liberdade, outra coisa é procurar a confusão ideológica.

 

O PSD é um partido que não sabe muito bem o que é. Há umas semanas atrás ouvi numa sede de concelhia o Presidente da Câmara do Marco de Canaveses, Manuel Moreira, dizer que a matriz ideológica do PSD era o centro-esquerda. Eu compreendo que esta conversa de saco seja comum em períodos eleitorais, mas tenho de discordar, lamento. Daí que aquilo que o Pedro Picoito diz em relação aos "conceitos ideológicos" faz todo o sentido.

 

Já em relação à parte da confrontação com o monopólio da revolução, Aguiar Branco tocou num ponto bastante importante que é o paradoxo da liberdade que a esquerda propagandeia. Mesmo na esquerda mais moderna esse paradoxo existe em grande escala. Veja-se o caso da distribuição de preservativos na visita do Papa ou as acusações de homofobia na discórdia com o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esse é, aliás, o tema deste interessante texto na plataforma da direita moderna Modern Conservative. O mal-estar que isto provoca em certa mentalidade é grande porque denuncia uma tendência da esquerda moderna - o emocionalismo burguês na ideologia - e que conhece a sua origem no radicalismo do início do século XX que, felizmente, foi vencido pela sensatez.

 

No fundo, há muita gente que engoliu em seco. E daí se calhar não, tal é a dificuldade em retractarem-se. Estranho tempo este que vive a democracia.



publicado por jorge c. às 15:23
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010
Os verdadeiros gestores públicos

Uma notícia que passará certamente despercebida aos olhos dos críticos das remunerações de gestores como António Mexia é esta, da injecção de mais de 10 milhões de euros numa empresa municipal - a EPUL. Três anos a bater com a cabeça nas paredes em situação de falência técnica, mas um dos administradores acha normal porque - e passo a citar - "Não se trata de uma cervejeira, em que a produção sai diariamente". Pois se calhar o problema são administradores cervejeiros, merceeiros, incompetentes para a gestão de negócios desta natureza. Todos nós sabemos que o mercado não está famoso, mas será só esse o problema? Não estará a política conduzida pela empresa municipal errada no seu alvo, na sua forma ou até mesmo no seu objecto? Que falta faria esta empresa municipal? É que três anos de prejuízos avultados coma  consequência que está à vista é muita coisa e, de certa forma, começa a ser um hábito, um mau hábito.

 

Noutra parte da notícia ficamos também a saber que o Estado gastará o mesmo valor nas celebrações do centenário da República. Que bom! Estamos todos de parabéns! Mas onde não há dinheiro para pão se calhar também não deveria haver para rebuçados, palhaços e foguetes. O exemplo que o Estado dá nestas ocasiões é óptimo para nos afundarmos ainda mais naquilo que é a noção de responsabilidade e prioridade. Bem sei que a esquerda gosta da memória anti-poder, mas talvez esta não seja a melhor altura para caprichos.



publicado por jorge c. às 12:40
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Terça-feira, 6 de Abril de 2010
A grande ilusão

Diz-se que a necessidade aguça o engenho. Em Portugal aguça a ilusão. Qualquer coisa, aliás, aguça a ilusão em Portugal: uma moda qualquer, uma novidade... o progresso, meu Deus, o progresso!

Desta vez a crença está nas exportações. Há um grupo indefinido de cidadãos portugueses que está convencido que a solução é exportar. E de facto nós temos exportado imensa gente, pessoas, que infelizmente não têm o valor de mercado pretendido. Uma chatice, esta coisa dos Direitos Humanos. À quantidade de gente que sai estávamos ricos e a esta altura o país prosperava.

Porém, a realidade é outra e a pergunta que se deve fazer é: exportar o quê?

Há alguma coisa para exportar? Que condições têm as empresas para exportar? Se o grosso do tecido empresarial português são PME's não seria adequado certificar-mo-nos de que existe volume de negócio para isso, que existe capacidade de produção para isso? E com quem se vai competir, estarão as empresas portuguesas no mesmo pé de igualdade?

Um país trapalhão (desenrascado, como lhe chamam), sem cultura de exportação, a braços com uma tremenda falta de crescimento económico, que durante anos delapidou o seu património agrícola e cultural convencido de que era o progresso, um país onde existe cada vez menos solidariedade e noção de função social das empresas, um país destes quer ter ambição nas exportações? Há aqui qualquer coisa que não faz sentido.



publicado por jorge c. às 12:14
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